Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012
Um Autor Convidado

Sob constelações

Jorge Gomes, redator da revista PARQUES E VIDA SELVAGEM

 

Naquela noite o céu estava azul profundo, como um oceano etéreo.
E enquanto o olhava aconteceu.
Primeiro, quase imperceptível, o desenho de uma garça, asas abertas lá no alto, seguida de outras, com recorte de via láctea.
Ao lado apareciam grupos de outras migradoras... todas a voarem no mesmo fluxo, talvez para norte.
Fiquei ali suspenso, num cenário fantástico, sem tempo definido, suspenso entre o sonho e a vigília, sem recurso a esquecimento.

E agora, quando os invernos são mais curtos, mesmo sem vermos, preparam-se os bateres-de-asa que antecedem a primavera.
Os patos-negros, que passam o inverno no nosso mar, abandonam este habitat e trocam-no pelo de reprodução, na tundra, além dos últimos bosques de vidoeiro, árvores de tronco branco que se riem da neve.
Muito mais a sul, em plena África subsariana, os cucos inquietam-se para retomarem viagens de milhares de quilómetros, até à Europa.
As fêmeas sabem que terão de dar tempo às  espécies hospedeiras dos seus ovos para que façam ninho e se entusiasmem na pulsão da corte e da postura, a fim de que os ciclos de vida sincronizem e resultem.
As alvéolas-amarelas vêm também do sul longínquo e aprestam-se a ocupar em dias primaveris os melhores espaços para que às suas crias nada falte no roteiro do alimento e da segurança.
São milhentos os voos que se sucedem, com recortes singulares...

A migração de fim de inverno é habitualmente muito mais rápida do que a outonal.
Esta última é feita em velocidade de cruzeiro, em sobe e desce, se apetecer. Satirizam o mau tempo e dizem: Anda ver se me apanhas!
A primeira é velocipédica: está em jogo a escolha dos melhores “apartamentos” nos habitats de reprodução. Chegar primeiro equivale a alguma ascendência na defesa do pouso.
As próprias gaivotas-de-patas-amarelas que vejo pela janela esta manhã de sábado, em fins de janeiro, já estão nos telhados eleitos para ninho.
Ao contrário das antecessoras desta espécie do litoral, já nem migram, com receio de perderem lugar.
Encostada à chaminé, oculta pela dobra do telhado cor de tijolo, é ali que farão em tempo preciso a postura e tratarão de fazer medrar as suas crias de cor escura.

Nós outros, os primatas que maior impacto causam nos ecossistemas, também prevemos um novo ritmo, com elevada ignorância sobre as migrações marinhas, de peixes, répteis, mamíferos e quejandos...
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, dizia o poeta.
E todos, em inconsciência espontânea, alinhamos pela sua batuta.



publicado por Dept. Educacional do Zoomarine às 00:00
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