O estamos dispostos a fazer para continuar a dar um lar Terrestre aos nossos filhos?
Ana Guerreiro Pereira, bioquímica
"Ainda não há algum tempo estava a ler este artigo do Naturlink, onde a parte que quero realçar é a seguinte: “a acção humana deverá ser responsável e moderada, orientada ao futuro de uma forma racional, de modo a preservar às gerações vindouras um legado duradouro, isto é, um planeta habitável e apto a gerar as condições para a vida humana tal como o temos conhecido até hoje.”
Tendemos a esquecer que a vida floresce, com ou sem seres humanos: floresceu muito antes e continuará muito depois. A vida, em si, adapta-se sempre. Nunca é demais realçar, pois, que não é propriamente o Planeta nem a Vida (num sentido mais abrangente, claro), que estão em causa: é o Planeta como o conhecemos, é a Vida que existe hoje, é a actual biosfera e o actual equilibrio que estão em causa. Há um pouco que separar as águas: o Planeta e a Vida existiram e existirão sempre, connosco ou sem; nós (Homo sapiens, digo) só cá chegámos há uns poucos 200 mil anos (o que, em termos geológicos e astronómicos, é irrisório) e a Natureza passou bem sem nós e continuará a passar, pois a vida adapta-se e floresce em qualquer lado e com novos equilibrios e condições. A grande questão, assim, é a preservação da Vida Actual, da Biosfera Actual, do Planeta Actual. Ou seja, da Humanidade, dos nossos filhos. É esta responsabilidade que tem de ser imputada e passada, seja por sensibilização ambiental, seja por educação ambiental: a responsabilidade para com as gerações vindouras de humanos, nossos filhos (e, lógico, de seres vivos actuais).
Em cem mil anos e em especial nos últimos 50-60, transformámos a face do Planeta e quase exaurimos os seus recursos. Os Rapanui da Ilha da Páscoa decerto que, se nos vissem hoje, nos gritariam "não façam o que nós fizemos!". As mentalidades têm de mudar, não só na forma como olhamos para o Planeta que nos abriga (o nosso condomínio terrestre, por assim dizer), como na forma como olhamos uns para os outros e para os restantes condóminos vivos da Terra. Deixarmos de lado a arrogância e aceitarmos o nosso papel de protectores do nosso próprio lar. Tendemos a esquecer-nos do essencial: a Terra, como ela é agora, é o nosso lar. Não temos mais nenhum. Se destruimos estas condições, destruimos a humanidade.
É importante passar a mensagem de que é possível ser responsável e é possível tomar medidas de prevenção, manutenção, preservação... inúmeras. E é essa outra noção errada que encontro em muita gente: de que já não há volta a dar, por isso, não vale a pena. Outra noção é a de que se os outros não se importam, porque havemos nós de nos importar. Outra ainda é a de que só uma pessoa não chega para levar à mudança q necessitamos. Quanto a esta última percepção, costumo citar algo que tem sido atribuído a Madre Teresa de Calcutá: "podemos sentir que o que estamos a fazer é somente uma gota no oceano; mas, sem essa gota, o oceano seria mais pequeno". Um consegue educar outros; esses outros educarão outros. E isso, felizmente, já é visivel na nossa sociedade. Não será na extensão necessária, mas "Roma e Pavia não se fizeram num dia"; estamos a lidar com mudanças de mentalidades, pelo que temos de apostar nas novas gerações.
Afinal, é delas o futuro: não só queremos deixar um melhor Planeta aos nossos filhos, como melhores filhos ao nosso Planeta. ;)




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